Entrevista: Noel Snooker

Um bate-papo com um dos melhores jogadores do Brasil

Um dos maiores expoentes da sinuca brasileira me concedeu uma entrevista. Mas antes de apresentar suas respostas às minhas intrépidas perguntas, apresento-lhes um breve resumo de todas as conquistas desse excelente jogador natural do estado do Paraná (sulista, assim como eu). O esporte parece ser mais forte no sul do país por razões que eu desconheço... Ao entrevistado, desde já agradeço pelo seu tempo e sua atenção.

Noel Rodrigues Moreira, 48, nascido em Roncador, no estado do Paraná, respondeu 10 perguntas sobre sua carreira, sua história com a sinuca e o futuro do esporte no país. Ele já representou o Brasil em 5 competições internacionais disputadas no Peru, Caribe, Índia e Qatar. Atualmente, Noel tem seu próprio clube na cidade de Curitiba, um website (noelsnooker.com.br) e um canal no YouTube (Noel Snooker). Eis aqui um resumo de seu respeitável CV:

  • 8 vezes campeão brasileiro
  • 18 vezes campeão paranaense
  • 17 vezes campeão da Copa Brasil
  • 2 vezes campeão dos Jogos Abertos do Paraná

SW: Como foi o seu primeiro contato com a sinuca? Quando foi que a sinuca deixou de ser apenas lazer e se tornou algo mais sério?
Comecei a praticar sinuca aos 7 anos, quando vi pela primeira vez a mesa, mas não pude jogar. Fui conhecer mesmo o esporte, o material, e levar a sério quando vim para Curitiba, em 1989. Foi ali que eu conheci os materiais e comecei a aprender e a participar dos campeonatos. Eu levei a sério a partir de 1991.

SW: Você tem algum patrocinador? Você acha que falta incentivo para o esporte (sinuca inglesa) no país?
Eu acho que a sinuca, assim como qualquer esporte amador no Brasil, carece do apoio não só de patrocinadores, mas como também da mídia. Nós sabemos que em alguns esportes, você vê algo sair na mídia numa sexta-feira e até a terça-feira seguinte você assiste àquela mesma reportagem. Na sinuca nós precisamos de mais apoio. Não tenho patrocinadores, apenas as entidades que me apoiam no canal Noel Snooker no YouTube: a Papaguara (marca de biscoitos), a Nunesfarma, que sempre esteve presente na minha carreira, a MedPrev e a Federação Paranaense de Sinuca. Mas não há um patrocínio forte na minha carreira, não.

SW: Como é sua rotina de treinos? Quantas horas você pratica por dia?
Antigamente eu praticava mais horas, havia mais eventos. Hoje o Brasil anda meio carente de competições. Então, às vezes, você fica dias sem treinar. Mas como eu estou dando aulas e tendo que gravar (vídeos) para o canal, eu acabo tendo contato com a mesa praticamente todos os dias. Posso dizer que o meu treinamento está na faixa de 1, 2 horas por dia, mas já cheguei a treinar 10 horas por dia.

SW: Qual o seu estilo de jogo? Você se considera um jogador ofensivo ou defensivo? Durante os treinos, você dedica seu tempo para aperfeiçoar o controle sobre a bola branca ou prefere priorizar o lado tático do jogo?
Eu sou um jogador agressivo, mas sei também a importância da defesa. No meu treinamento eu trabalho um pouco de cada coisa; defesa e ataque, mas sempre fui de jogar "pra frente". Nós sabemos que no geral é o domínio da branca (que importa). Acredito que se você estiver treinando para o ataque e também treina um pouco de defesa, isso já é o seu controle sobre a branca. Se você for para o ataque, você será obrigado a preparar uma bola que está "longe" e a branca, numa bola longa, é mais difícil de ser controlada. Resumindo: eu me considero um jogador agressivo, mas priorizo a defesa também.

SW: Você se considera satisfeito com a sua técnica? Há alguma coisa que você acha que precisa melhorar/mudar no seu estilo de jogo?
Eu me sinto bem com a minha maneira de jogar, sempre joguei com bastante efeito. Talvez eu tivesse que melhorar, mas isso há 20 anos atrás, assim que eu comecei. Há alguma coisa na postura, eu jogo meio "torto", mas agora é difícil de mudar. Talvez com uma rotina de treinamento eu poderia fazer um bom trabalho, mas como sabemos, depois dos 50 anos, os reflexos já não são os mesmos, a aptidão. Acho que já é tarde para fazer uma mudança agora pensando em competir a nível internacional. Mas, de repente, para dar aulas e fazer algum trabalho com os jovens seria legal eu fazer essa mudança ainda.

SW: Durante os jogos, você se adapta ao estilo de jogo de seu adversário ou segue uma estratégia previamente definida?
Eu tento descobrir quem é o meu adversário para saber qual é o seu ponto fraco. Isso por si só já é uma estratégia, mas se eu não conheço é ali na mesa, nas primeiras tacadas que se tenta ver a "força" do adversário. Por exemplo: se eu estou num campeonato internacional, já fui para o ataque em duas, três bolas, mas eu troco umas defesas para ver o conhecimento do meu adversário. Isso é muito importante, até para ganhar ritmo de jogo na competição.

SW: Quais das suas conquistas te dão mais orgulho? Quais foram seus melhores momentos no esporte até hoje?
Eu acho que como qualquer atleta, um título internacional é muito importante. E quando eu fui campeão sul-americano em Lima, no Peru, passei por algumas dificuldades na época. Foi em 1999. Participaram os oito melhores colocados no ranking do Brasil e uma das coisas que me motivou muito foi saber que eu era o primeiro atleta brasileiro a ter esse título internacional e quando cantamos o hino nacional foi uma coisa que - como já citei em algumas entrevistas - mexeu bastante comigo.

SW: Há algum profissional em quem você se inspira? Você assiste algum atleta regularmente? Se sim, por qual motivo?
Na verdade, quando eu comecei, e até há bem pouco tempo, eu sempre gostei muito do Stephen Hendry, que foi sete vezes campeão mundial. Ele é considerado um dos melhores de todos os tempos na sinuca. Eu sempre gostei de ver os vídeos dele; como ele "abria" as vermelhas, como que era sua técnica para dar sequência nas tacadas - já que eu sempre gostei de jogar para fazer boas tacadas. Então pra mim a inspiração foi o escocês Stephen Hendry.

Stephen Hendry (à esquerda) e Noel Rodrigues.

SW: Na sua opinião, por que a sinuca inglesa não decola no Brasil? A "sinuquinha" é bem popular, mas o pessoal não sai disso.
Como eu falei, falta de patrocínio e atenção da mídia. E a regra inglesa é uma coisa muito técnica, então são poucas as pessoas (no Brasil) que praticam a regra inglesa. Hoje, quando fazemos algum trabalho ou algum vídeo, nós focamos mais no público em geral, que gosta mais de "mesinha", bola oito e regra brasileira. A sinuca inglesa é um esporte muito técnico que às vezes acaba sendo muito caro, porque você tem que usar um pano diferente (Strachan Tournament) e as bolas Aramith, que são mais caras, taco modelo "Ash"... tudo é mais caro. As pessoas têm dificuldades financeiras para ter acesso a esse material e isso acaba tornando difícil a prática do esporte no Brasil. E as mesas também. Para se ter uma mesa inglesa é necessário um espaço maior. Aqui no meu clube em Curitiba eu tenho 4 mesas de 3,1 metros. Se eu tivesse que colocar mesas inglesas, só iria acomodar 2; isso tudo dificulta. Em resumo, são as dificuldades de acesso que temos no Brasil.

SW: O que você diria para os jovens que se interessam por sinuca no Brasil? Que tipo de conselho você daria a eles?
Como aconteceu comigo, é importante descobrir alguma academia, algum amigo, alguém que entenda de sinuca para se informar sobre as técnicas. Quando eu vim de Roncador, em 1989, meu cunhado me levou aos dois melhores clubes de sinuca de Curitiba que tinham as mesas inglesas, as bolas, os tacos, o giz, etc. Enfim, ele me apresentou o material de primeira linha, e aí eu acabei vendo os melhores jogadores do Paraná na época, e isso fez com que eu me tornasse algo a mais do que os jogadores aqui no Paraná. Tendo acesso a um bom profissional você acaba aprendendo e hoje também há muitos vídeos (YouTube, Facebook, televisão) que te dão essa oportunidade - que eu não tive. Na época era tudo muito mais difícil. Resumindo: pra quem gosta é questão de levar a sério. O primeiro passo é ter disciplina. Como eu sempre digo, disciplina aliada a um bom treinamento com pessoas do meio.

Noel jogando contra Hendry pelo Brazil Masters, em 2011.

Imagem de M. H. por Pixabay