A sinuca tem um novo campeão

Jordan Brown conquista seu primeiro título

Olá de novo! Normalmente eu não costumo dedicar um post inteiro a uma única partida, mesmo que seja uma final, mas os fãs testemunharam algo verdadeiramente extraordinário na história do esporte. O norte irlandês Jordan Brown, que até então era o número 81 do mundo escalou estarrecedoras 36 posições no ranking após derrotar o campeão mundial Ronnie O'Sullivan na final do Aberto do País de Gales (Welsh Open). Brown agora ocupa a posição de número 45 no ranking. Essa foi uma das maiores surpresas dos últimos anos no esporte (e o resultado mais improvável que eu já vi). Como se sabe, há uma palavra na língua portuguesa que define bem o ocorrido neste último domingo: zebra. Eu não sabia que o emprego da palavra zebra, neste contexto, está relacionado ao Jogo do Bicho. Como todos sabem, são 25 animais diferentes e a zebra não está incluída. De acordo com a Wikipedia, a expressão foi usada pela primeira vez em 1964:

"Em 1964, antes de uma partida de futebol entre a Portuguesa (RJ) e o Vasco da Gama, perguntaram  ao técnico da Portuguesa, um time bem mais fraco, se ele conseguiria derrotar o Vasco. Gentil Cardoso, o técnico, comentou que derrotar o Vasco seria como dar zebra no Jogo do Bicho. Já que não há zebra no jogo, a afirmação expressava uma impossibilidade. No entanto, a Portuguesa de fato venceu o jogo por 2-1 e, desde então, o termo zebra tem sido usado no Brasil nesse sentido." 

De fato, dadas as devidas proporções, foi uma zebra maior do que aquela das semifinais da Copa do Mundo da FIFA de 2014, onde a seleção brasileira perdeu para a Alemanha por 7-1 jogando em casa. A zebra não foi a derrota propriamente dita (até porque os alemães sabem jogar futebol), mas foi o placar elástico que deixou os brasileiros envergonhados. Antes que eu comece a dissecar a final frame após frame, vou citar uma frase do general Sun Tzu que sempre me vem à cabeça quando estou assistindo sinuca: "A garantia de não sermos derrotados está em nossas mãos, porém a oportunidade de derrotar o inimigo é fornecida por ele mesmo." Eu sei que "inimigo" é uma palavra forte, mas mesmo assim essa frase cai muito bem para o jogo de sinuca. 

Os finalistas

O jogo começou morno, com ambos os finalistas jogando mal. É de se entender a situação de Brown, já que se tratava de sua primeira final, então é perfeitamente normal que um jogador como ele fique nervoso nessas circunstâncias. Já para o campeão mundial, não há desculpas para começar mal a partida. Às vezes eu imagino se esses caras fazem pelo menos um aquecimento antes do jogo. O'Sullivan teve as primeiras oportunidades, mas acabou perdendo o primeiro frame que, diga-se de passagem, não foi bonito de se ver. O segundo frame não foi muito diferente do primeiro. O'Sullivan havia feito apenas 25 pontos quando deu uma chance de ouro ao adversário. Brown fez uma tacada decisiva de 58 pontos para ampliar a liderança. O'Sullivan ganhou o terceiro frame numa única ida à mesa com uma tacada de 74. Brown teve a primeira oportunidade no quarto frame a abriu uma vantagem de 59 pontos, e logo em seguida fez uma tacada decisiva de 78 pontos. Brown também ganhou o quinto frame com o primeiro centenário da partida, ampliando ainda mais sua vantagem no placar (4-1).

O'Sullivan finalmente acordou para o jogo no sexto frame com uma tacada de 135, que foi seguida por outra tacada centenária (121) quando se aproveitou de uma chance no sétimo frame. Não houve tacadas altas no oitavo e último frame da sessão. Brown tirou proveito após a branca cair na caçapa, matou uma bola longa e uma azul dificílima na caçapa próxima ao lugar da amarela. O'Sullivan ainda estava na frente no placar (36-31) quando fez uma das piores jogadas de toda a partida. Ele atingiu uma vermelha encostada na tabela em cheio, colocando-a em jogo e deixando a branca no meio da mesa. Brown foi bastante competente ao garantir o frame a partir dessa posição. E daí foi a vez de Brown conceder uma oportunidade ao oponente; ele atingiu a azul ao "subir com a branca", deixando-a numa posição bem favorável ao adversário. O'Sullivan fez apenas 33 pontos, mas mesmo assim ganhou o frame apesar de ter errado uma vermelha na caçapa do canto direito. Ele teria que tirar "um fino" muito grande e portanto, fez um mau julgamento porque ele poderia ter exigido que Brown voltasse à mesa, já que este havia cometido falta. Brown teve uma chance de liderar no placar, e ele assim o fez (44-38), mas perdeu vantagem nas jogadas defensivas que seguiram. O destaque do frame foi a jogada na marrom com o fancho por parte de O'Sullivan. No décimo frame, O'Sullivan abriu o placar com uma bola longa e fez uma tacada de 68 para empatar o jogo em 5-5. No décimo primeiro frame, foi Brown quem deu a O'Sullivan outra oportunidade ao errar um "telefone" bastante complicado na caçapa do meio. O campeão mundial assumiu a liderança no placar pela primeira vez no jogo com uma tacada de 61 (6-5).

Brown estava jogando bem, e prontamente reagiu no décimo segundo frame com uma tacada de 46, que provou ser decisiva. O destaque do frame foi uma vermelha na caçapa do meio que pôs Brown 55 pontos à frente no placar com 59 pontos na mesa. Com isso Brown empatou o jogo em 6-6. No frame seguinte ele errou após marcar 25 pontos dando uma nova chance ao campeão mundial que, surpreendentemente, errou uma bola preta por não tê-la jogado com a força necessária. No fim foi um frame feio de se ver e foi nesse ponto da partida que O'Sullivan começou a mostrar sua frustração. Brown estava na liderança de novo (7-6) e O'Sullivan novamente conseguiu empatar o jogo com uma tacada de 58. Décimo quinto frame. Foi a vez de Brown fazer uma tacada decisiva de 56, aproveitando-se do erro do oponente ao tentar matar uma bola rosa de rotina. O'Sullivan respondeu com sua terceira tacada centenária no jogo (119) para levá-lo a um frame decisivo. Foi um centenário difícil de fazer. Para poder continuar a tacada, O'Sullivan matou duas bolas que figuram entre as mais difíceis de todo o campeonato: uma azul posicionada em seu local no centro da mesa e uma vermelha dificílima no canto direito.

No fim, o jogo seria definido numa negra. O'Sullivan matou uma vermelha sem querer e a branca foi parar perto das vermelhas numa posição na qual não era possível continuar a tacada. O ponto-chave aqui é que a jogada óbvia seria uma defesa. O'Sullivan poderia ter jogado na amarela, verde ou marrom, deixando a branca encostada na tabela, mas ele decidiu jogar uma azul dificílima que oferecia infinitamente mais riscos do que recompensas. Eu não vejo nenhum sentido em ter jogado na azul. Por que não ter paciência? Já que o jogo havia se estendido até o décimo sétimo e último frame, por que um jogador tão bom quanto ele iria estar afoito? Seria uma forma de punir a si mesmo por ter matado uma vermelha sem querer? Enfim, ele deu ao seu adversário a oportunidade de liquidar a partida. Jordan Brown assim o fez com uma tacada vencedora de 74 pontos, semelhante às tacadas decisivas que havia feito ao longo do jogo. Muito bem jogado, de fato. O campeão precisou perturbar as vermelhas algumas vezes durante a tacada e mesmo assim não errou. Eu gostei muito de uma vermelha que ele matou na caçapa do meio para passar de 40 para 41 pontos e assim continuar a tacada. 

Existem mentiras; existem mentiras deslavadas; e existe a estatística. As estatísticas mostram que o campeão mundial fez mais pontos (893 contra 815), "matou" mais bolas (265 contra 229), fez mais centenários (3 contra 1) e mesmo assim perdeu na final pela terceira vez consecutiva na temporada. De fato, esta é a quinta final que ele perde na série Home Nations desde que derrotou Kyren Wilson por 9-2 na final do Aberto Inglês em 2017. Desde então ele perdeu para Judd Trump (3 vezes), Mark Selby e agora Jordan Brown. A ousadia e a habilidade do azarão parecem ter renovado os ânimos de todos os jogadores no circuito e  com certeza essa vitória histórica ficará por muito tempo na memória dos fãs do esporte. Além disso, ele agora pertence ao seleto grupo de jogadores com um histórico impecável contra O'Sullivan: Aaron Hill e Alexander Ursenbacher. O norte irlandês tem também vaga garantida no Campeão dos Campeões no fim do ano. Foi uma tremenda façanha!

Embora a zebra seja um sinal sinistro, parece que o campeão mundial voltou ainda mais determinado. O que não nos mata nos deixa mais fortes. Ele mostrou muita resiliência ao derrotar Ding Junhui no Cazoo Players Championship que começou nesta segunda-feira dia 22. Os demais jogadores que ainda estão neste torneio são Barry Hawkins, Jack Lisowski, Neil Robertson, Kyren Wilson, John Higgins e Mark Selby. O número 1 do mundo Judd Trump saiu após perder para Stuart Bingham por 6-5. O próprio Bingham foi eliminado nas quartas-de-final por Barry Hawkins, o primeiro semifinalista. Jordan Brown perdeu por 6-0 para um John Higgins muito inspirado. Ainda pode dar zebra até o fim da temporada. E finalmente, o maior torneio de todos está chegando. A julgar pela qualidade da sinuca que os jogadores têm demonstrado, defender o título mundial vai ser um desafio gigantesco para o atual campeão porque, a essa altura, e ao contrário da última vez, todos os jogadores da elite do esporte já estão acostumados a jogar a portas fechadas.

Crédito da foto: wst.tv